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“Os Doentios” do escritor português Fialho de Almeida chega ao Brasil

Postado por Redação em Lisboa

11/10/2016 8:55


Crédito:

A editora Siglaviva e o Camões – Instituto da Cooperação e da Língua no Brasil lançam o livro de contos “Os Doentios” do renomado escritor português Fialho de Almeida, no próximo dia 13 de outubro (quinta-feira), às 19h30, em Brasília. Nesta ocasião, os leitores brasileiros terão a oportunidade de conhecer mais sobre a sua obra e trajetória literária ainda pouco conhecidas no País.

“Em 1881, José Valentim Fialho de Almeida (1857-1911), ou apenas Fialho de Almeida — português da singela e alentejana Vila de Frades, fundada em 1255 e hoje com pouco mais de 900 habitantes —, lançava seu primeiro livro, uma reunião de treze contos, a primeira de duas partes que deveriam sair sob o mesmo título, o genérico Contos. A segunda, “A cidade do vício”, anunciada na última página desse Contos, seria publicada no ano seguinte, 1882, com o nome da parte e com a ressalva editorial “segundo livro de Contos”. Já a primeira, “Os doentios”, acabaria por ter seu nome de origem, em suas tantas edições, preterido pelo genérico.

Após 135 anos da estreia literária de Fialho de Almeida em livro, ainda inédito no Brasil, coube a editora brasileira Siglaviva a iniciativa de editá-lo com o apoio do Ministério da Cultura de Portugal, através de um edital da Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

Apesar de principiante, “Os doentios” já demonstra toda a força da prosa de um escritor que, sem dúvida, está entre os mais destacados da literatura portuguesa, embora, por questões políticas da época, não tenha alcançado a projeção de Camilo Castelo Branco — a quem Fialho dedicou este livro — ou a de um Eça de Queiroz.

Esta edição — que passou por atualização linguística e revisão editorial e manteve a grafia original —, tem o objetivo de, sobretudo, apresentar Fialho de Almeida aos leitores brasileiros, que praticamente o desconhecem; um Fialho que aqui se vale do lirismo da estética romântica, construindo-o, desconstruindo-o, para imprimir um realismo, um naturalismo trágico, grotesco, convulsivo, que também contribuiu para a sua reputação de um escritor “maldito e marginal”. Não é à toa que Guerra Junqueiro disse: “Em Fialho de Almeida há um poeta genial e um noticiarista sacrílego. Sacrílego porque gastou uma parte do seu gênio, isto é, da sua imortalidade a contar coisas fúteis e ruins, que viveram instantes ou que nasceram mortas. De metade dum bloco de mármore fez beleza. A outra metade estilhaçou-a e converteu-a em pó”. Junqueiro é preciso, cirúrgico: da beleza ao pó… doentiamente. Este, com certeza, é o condenável Fialho de Almeida.” (Renato Cunha, editor)

Durante o evento, haverá uma palestra sobre a vida e obra do escritor com Lúcia Helena Marques Ribeiro, professora de literatura portuguesa da Universidade de Brasília – UnB.

Mais informações em: http://www.siglaviva.com.br/doentios.html

Serviço

Lançamento no Brasil do livro “Os Doentios”, de Fialho de Almeida

Dia 13 de outubro de 2016, quinta-feira, 19h30

Local: Auditório do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua (Embaixada de Portugal – SES 801, lote 2, Brasília – DF).

Preço do livro: R$ 30,00 (com 50% de desconto no lançamento, somente em dinheiro)

Entrada Gratuita

SOBRE FIALHO DE ALMEIDA (Vila de Frades, Vidigueira, 1857 — Cuba, 1911)

Filho de um mestre-escola de Vila de Frades, Fialho de Almeida ficou a dever ao pai os primeiros rudimentos de educação. Foi, em seguida, para Lisboa, onde, até aos 15 anos, estudou no Colégio Europeu. Foi, ainda em Lisboa, praticante de farmácia, tendo, com grandes dificuldades e muita força de vontade, concluído um curso de Medicina, a qual nunca, aliás, chegou a exercer. Optou antes por uma vida errática de jornalismo e boêmia, num percurso amargurado e tingido de ressentimentos, invejas, frustrações e alguns instantes redentores de visionarismo e gênio. Em 1893, o guerreiro anárquico mostra-se cansado e casa com uma provinciana rica, transformando-se num lavrador abastado de província. Minado de contradições, inseguro, sedento de afeto e de reconhecimento, cede, pouco antes da República, à teia de lisonjas de João Franco e torna-se um defensor sectário do ditador, que lhe passara a mão pelo pelo. Isto lhe valeu o desprezo ruidoso até de antigos admiradores, que o crivam diariamente de frechas e o enlameiam com dichotes na imprensa. “Tratado em prosa latrinária como se fosse o maior dos pulhas”, segundo nota Albino Forjaz de Sampaio, nem em Cuba encontra refúgio contra a agressão.

Fialho, que escreveu prosa de vários gêneros, desde a crítica de arte à de costumes, surge em pleno culminar do realismo e confessa o abalo que lhe causou a leitura de Eça de Queirós: “Li o Padre Amaro da Revista Ocidental num tempo de rapaz, em que o espírito inquieto tem a grande receptividade da emoção, que vai sugando de tudo o que a cerca, materiais que depois expande assimilados numa leviandade que é ao mesmo tempo estouvada e simpática, por ser sincera”. No entanto, dois fatores, que se entreajudam, impediram Fialho de ser apenas um realista de escola: a sua prodigiosa condição de poeta noturno e visionário e o trabalho fabuloso, ainda que por vezes excessivo, que deu à linguagem. A personalidade poderosa de Fialho, a sua visão ora noturna, ora luminosa das coisas, as suas obsessões particulares, os seus fantasmas, a sua imaginação sensual e brutal, o que há em si de desmedido e sombrio, invadem, por assim dizer, o pormenor realista mais trivial ou o trecho descritivo aparentemente mais inócuo: tudo surge perturbado, viciado, pervertido por um clima especial, por uma dimensão nova e excessiva. Por outro lado, para transmitir ao leitor este mundo peculiar, Fialho tenta e, por vezes, consegue forjar uma língua nova e mais poderosa. Por isso, chega a afirmar: “Quando um dia se fizer na língua portuguesa a transfusão juvenil que é necessária, e desse caos que é a linguagem de hoje brotar uma língua nova, vigorosíssima, alada, cheia de buzinas e flautas, de tempestades e cicios, então se verá como o papel daqueles obscuros obreiros foi consciente, e que porção de imaginativa e ficção poética eles lograram transfiltrar na antiga língua, mais própria para discursos do que para livros de análise e de visão”. Essa língua, em grande parte, criou-a Fialho de Almeida, em tantas páginas admiráveis, “pela maravilhosa agilidade e elegância que […] conseguiu meter no período português, originariamente rígido e monótono, tornando-o coleante como uma pelica a todas as cinzeluras da ideia, e apto, como ele dantes não era, a todas as mímicas da alma e a todas as microscopias da impressão” (palavras de Fialho, não falando, obviamente, de si, mas a pensar, obviamente, em si).

in Dicionário cronológico de autores portugueses, vol. II, Lisboa, 1990

Fonte: IC